Publicado por: Suel Fruvasc | 24/10/2010

Como as primeiras chuvas do caju…

     Certo dia, em meados do ano de 2007 (quando ainda morava am Jacobina), fui a trabalho a um município baiano, quase pernambucano-sergipano-alagoano chamado Euclides da Cunha. Estava numa época difícil e não parava de pensar as besteiras que passas involuntariamente na cabeça nesses tempos. Não parava de pensar na música  “Como as primeiras chuvas do caju” (clique para ouvir – interpretada e composta por Angela Linhares), faixa 2 do disco Massafeira, que havia comprado numa feirinha cultural em Jacobina.

“Deixa o teu abraço vir curvadoHST Angela Linhares
que eu conheço o peso desses tempos,
e corre comigo como de primeiro,
que meu corpo é leve como as primeiras
chuvas do caju.

Roça no meu corpo e dança lento,
E feito folha tonta cai no chão
Arranca da minha boca esse ranço
que entristece e me magoa o coração
E acalma esse queimar de urtigas
Esse desassossego que me extenua
o corpo ainda na manhã
E me desata o laço, acocha o braço me
encurralando entre varandas e varais
E agridocemente me envenena como
os primeiros cajus do meu quintal.”

     No dia da viagem, com essa música me intrigando pelo fato de não ter idéia do que eram as “chuvas do caju”, perguntei ao Marcelo, um amigo que trabalhava comigo. Cara esperto e da região, com certeza saberia. Marcelo me explicou que são chamadas assim as primeiras chuvas da estação chuvosa. Disse ainda que os agricultores, em suas ignorâncias, achavam que essa chuva potencializava o crescimento do pseudofruto. Pura ilusão. Na verdade essas chuvas, junto com alta temperatura do nordeste e alta humidade relativa do ar, propiciavam antracnose (principal doença que ataca esse tipo de fruto) nos cajueiros.

chuvas do cajú

     A música continuou na cabeça, dava a ela o sentido que me era conveniente.

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     Me lembro que chegar em Euclides da Cunha foi minha primeira imagem de nordeste seco. Todas as cidades da região que eu havia conhecido até então eram muito diferentes do que o senso coletivo pensa sobre o nordeste. Mas Euclides era muito seco e quente, talvez a cidade mais quente que eu já conheci. Era primavera.

     Foram 4 dias na cidade. Não foi um tempo bom, pessoalmente. Era muito mais jovem, estava inseguro, sozinho numa cidade desconhecida. No penúltimo dia fui em busca dos tradicionais vasos de barro que dão fama à cidade.

     Conheci, no primeiro ateliê que entrei, Sr. Juveno, um dos vários semi-analfabetos do município. Era o “senhor dono da casa” de um grupo de 12 familiares e tinha, em sua roça, uma modesta plantação de feijão que intentava sustentar a família e conseguir um dinheiro com a sobra. Sr. Juveno era um homem sensato e de mente aberta, empenhava seu dom artístico nas peças de artesanato que produzia. Falava de muitos assuntos com o mesmo tom de voz, fosse coisa simples, fosse polêmica. Isso me impressionava, ele parecia não se emocionar com nada. Me contou que começou a vida de agricultor em fazendas alheias, ganhando uma pequena parte do que produzia. Se orgulhava de ter conquistado sua pequena terra própria. Espero que hoje, depois de pouco mais de 3 anos, tenha conseguido muito mais.

     Durante uma boa conversa com aquele homem, ouvi uma música que nunca tinha ouvido antes.

“Ela virá no verão
Com as chuvas de cajus
Os flamboyants estão sangrando
Nessas tardes tão azuis” (Chuva de cajus – Alceu Valença)

     Foi a primeira vez que entendi que depois que você conhece uma coisa seus olhos são abertos à percepção desta e você passa a vê-la a todo momento. Eu, em 18 anos, nunca havia ouvido a expressão “chuvas de caju”. Agora, depois de conhecê-la, em uma mesma semana a escutava pela segunda vez. Perguntei ao sr. Juveno o que significava chuva de cajus, querendo comprovar a tese que meu amigo letrado havia me apresentado. Sr. Juveno me respondeu, alteirando pela primeira vez sua feição para sorriso:

     -“É o chovisco que meiora as colheita de caju, mio, feijao…tudo que plantá.”

     Aquela fala risonha inesperada acabou trazendo uma carga de sinceridade muito grande. O significado que ele me deu atendia muito mais ao meu anseio do que o dito por Marcelo. Naquela hora eu entendi o quão sábio Juvena era e quão chato e pessimista era o meu amigo. Foi assim que eu comecei a amar a simplicidade desse povo que produz uma arte sincera, singela e humilde.

     Que saudades dessa terra…


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